Regressei à quarta dimensão, após um longo período de pausa, pedindo desde já desculpas a todos os poucos mas fiéis seguidores por esta ausência não premeditada.
Estreio este regresso com uma entrevista a António Granado, cumprimentos a todos.
O editor do Público.pt e autor do blogue Ponto Media, jornalista que acaba de atingir os seus 15 anos de profissão e entusiasta da internet desde que se conhece, fala-nos da importância da web para o jornalismo, da controvérsia da carteira profissional e das dificuldades da sua obtenção para os jovens aspirantes.
4Dimensão: Que impacto tem a internet no jornalismo actual?
António Granado: Com a internet, o jornalismo tem uma nova oportunidade de se transformar. Já assistimos a várias formas de se fazer jornalismo, a internet é apenas mais uma. Com esta plataforma, podemos dar mais informação e uma informação muito mais completa aos nossos leitores: um jornalismo 360º.
4D: Mas, até que ponto é que não será prejudicial esta «explosão» de informação para os media?
AG: Esta «explosão» irá obrigar os jornais a terem de se superar, dando mais e melhor informação; e o facto de existir uma multiplicidade de fontes de informação apenas poderá potenciar o trabalho jornalístico. Perante este cenário, o jornalista fica com um papel importante, o de escolha. As pessoas não têm hipótese de visitar milhares de websites por dia, cabe ao jornalista escolher a informação mais importante para o leitor. Contudo, apesar de já existir esta diversidade de fontes, os jornais tendem a imitar-se uns aos outros, isto é, todos acabam por tratar o mesmo assunto ao mesmo tempo; isso é que é preciso mudar. Acredito que os jornais se diferenciarão quando fizerem apostas próprias.
4D: Com a facilidade de acesso às ferramentas de trabalho e com a dinâmica do recente cidadão repórter, não se estará a diluir a barreira entre o jornalismo e o dito não-jornalismo?
AG: Considero que a fronteira está a diluir-se, mas acho que não é por ter carteira profissional que sou jornalista. O que nos faz jornalistas é o aderirmos a um código deontológico, tal como acontece nos EUA ou em Inglaterra. Em muitas das principais democracias do mundo não há qualquer documento que prove que uma pessoa exerce jornalismo, o jornalista apenas poderá diferenciar-se pela sua credibilidade e pela sua reputação. Os cidadãos têm de funcionar como uma valiosa fonte de informação. Conseguimos provar o que o cidadão repórter nos trouxe? Então publicamos!
4D: Está a começar a haver uma total convergência de meios.
AG: Não há dúvida nenhuma que está a haver uma convergência de meios de comunicação social, uma convergência de plataformas. O mais curioso é que todas essas convergências se estão a resumir ao pequeno ecrã: ao telémovel e aos vários tipos de computadores portáteis. Mas, voltando ao assunto do jornalismo cívico, também podemos falar de uma convergência entre produtores e consumidores: os produtores estão a consumir e os consumidores estão a produzir, o que é inédito. Todavia, a maior convergência a que assistimos, inquestionavelmente, dá-se na internet.
A deslocação dos jornais para a rede deve-se à dificuldade destes atrairem novos leitores. Estou cada vez mais convencido de que não será possível ir buscar nem mais um leitor para o papel! Mas não é por isso que as pessoas deixam de estar informadas! Fala-se muito desta nova geração que não lê jornais, mas esta geração está muito mais informada do que as gerações anteriores! Escreve muito melhor em comparação às gerações anteriores! É porque estão a receber informação através de outros canais.
4D: Então poder-se-á dizer que a internet é o principal canal de informação da actualidade?
AG: Não esqueçamos que existe uma camada brutal da população portuguesa que não utiliza a internet. Recordo, por exemplo, uma questão levantada numa recente conferência por João Duarte, da empresa Young Networks, relativamente a uma candidatura às eleições autárquicas lançada no Youtube, para a presidência da Câmara de Caminha. O mesmo disse: “Quantas pessoas de Caminha viram o lançamento da candidatura no YouTube? Mais valia ter feito um comício com o Quim Barreiros!”. Portanto, é preciso ter alguma noção da realidade envolvente.
4D: Mas a internet já teve um enorme impacto nos media. Considera que se repensará a questão da carteira no nosso país com esta iminente redefinição da profissão?
AG: Talvez. Acho que a carteira não faz qualquer sentido, traz imensos problemas. Posso apontar 20 ou 30 só no nosso país!
4D:Sinta-se na liberdade de apontar.
AG: Considero relutante o facto de dois jornalistas séniores ficarem encarregues de assinar a carteira de um júnior, isto é, encarregues de atestar a sua capacidade. Desculpe, mas a sua capacidade está atestada! Dificultam imenso a questão dos freelancers: não se pode ter uma carteira de freelancer sem se ter trabalhado num jornal, o que é absolutamente rídiculo! Deveria ser exigido apenas um portofolio actual. A partir dos 15 anos de profissão não é necessária qualquer assinatura, senti isso na última vez que renovei. Ou seja, serei jornalista até morrer. Posso já estar reformado e ainda ter carteira profissional, o que não faz sentido nenhum.
Bruno M. Ventura
(BREVEMENTE DISPONÍVEL EM VÍDEO)